http://blogs.estadao.com.br/jt-variedades/bem-vindos-ao-clube-da-escultura/

PEDRO ANTUNES

É no sexto andar de um prédio despretensioso da Avenida Treze de Maio, na Bela Vista, que uma velha mágica acontece. Um punhado de argila toma forma. Qualquer uma. É abrir a porta para entrar nesse mundo de miniaturas de monstros, super-heróis e cidadãos comuns.

Antes do primeiro passo, à esquerda, o visitante é encarado pelo rosto, em tamanho real, de Clark Kent, ou melhor, do Superman, à esquerda, sob um balcão. Ao lado da porta, à direita, quem faz a vigília é um busto do próprio e assustador Frankenstein. Eles são apenas os primeiros de uma centena de outros dispostos aleatoriamente num apartamento de 90 m².

Ali é um ponto de encontro de 15 pessoas que dividem um mesmo gosto. Meter a mão na massa! Ou, melhor, alguns nem tanto. “Quando comecei, há 20 anos, não gostava porque tinha nojo da argila. Até hoje tenho algumas restrições a abrir um pacote novo”, conta Vinícius Fragata, de 39 anos. É ele o locatário do apartamento e empresta seu sobrenome ao ateliê: Fragata Estúdio.

Ele, porém, não se sente a vontade com isso. “Não gostei muito em colocar meu nome no estúdio. Minha proposta era outra. Queria fazer uma espécie de clube da escultura”, conta ele, próximo da porta dupla que dá para um terraço, recebendo diretamente o sol daquela manhã de quinta-feira. “Também brincamos que é o 6º Andar Estúdio”, completa.

O espaço foi aberto por Fragata no início do ano passado. Sua ideia era poder dar aulas e criar um espaço para poder trabalhar nas esculturas. Por ser técnico de porcelana na FAAP, três dos seus quatro primeiros alunos vieram de lá.

“Hoje só tem um. O que é bom, para mostrar que não existe uma dependência”, diz.Cada peça leva de duas semanas a um mês para ificar pronta e custa, em média R$300. O primeiro passo é, claro, escolher o personagem e o tamanho. Uma peça de 30 cm consome, em média, um quilo de massa de modelar à base de óleo.

São dois tipos de frequentadores. Os alunos e os “quase-sócios”. Os primeiros têm aulas com Fragata, num total de 10. Outros quatro possuem a chave do ateliê para poderem utilizá-lo quando for necessário. Dois dos alunos mais antigos, os também escultores Glauco Longhi e Rafael Grassetti, ambos de 22 anos, sentiam necessidade de passar mais tempo no ateliê. Num primeiro momento, Fragata emprestava a chave. “Mas avisei: ‘vocês tem que dar um jeito de me entregar a chave na sexta à noite, porque tenho aula no sábado. Não podem me ferrar’”. E isso aconteceu alguma vez? “Não! Eles me respeitam (risos)! Tem que ter uma hierarquia”.

Rafael vai ao ateliê entre duas a três vezes por semana. Fica das 11h até as 3h. Já Glauco tem fases. Ora vai muito, ora some. “Agora tenho ido um pouco menos. Estou trabalhando com modelagem de efeitos especiais e isso toma muito do meu tempo, mas quando vou, fico até a madrugada”.

Uma geladeira posicionada entre as estantes com estatuetas garante o abastecimento dos artistas. Pelo menos com refrigerante. Durante a visita da reportagem do JT ao ateliê, às 9h, Glauco tomou dois copos de Coca-Cola Light. “Não dá para trabalhar tomando cerveja, né? Só trazemos para tomar numa sexta-feira, com um amendoim”, diz ele.

Os três – Fragata, Glauco e Rafael – são escultores. Mas cada um segue uma linha. Enquanto o mais velho faz escultura tradicional, com estatuetas de super-heróis e artísticas, Glauco, hoje, faz moldes para efeitos especiais em cinema e propaganda. Já Rafael é especialista em escultura 3D, feita no computador. Mas naquele apartamento, os interesses de todos convergem: transformar um punhado de massa disforme em belos personagens.

Para ter aulas com Vinicius Fragata:
R. Treze de Maio, 1100, apto. 62, Bela Vista. Telefone: 3288-5246.
https://fragatastudio.wordpress.com

Bela matéria, o repórter realmente captou o estilo do estúdio… obrigado Pedro Antunes!!!

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